O Twitter e o ódio lucrativo
- 8 de jan.
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Ao contrário do meu outro texto sobre o Instagram, em que eu dizia “não é pelo Instagram que tenho asco, é pelo ambiente”, neste texto o asco é pelo ambiente e também pela própria rede social: o Twitter. Diferente do Instagram, o Twitter, ou “X”, transformou-se em um lugar asqueroso por ser movido pelo pior sentimento que a raça humana é capaz de expressar: o ódio ao próximo.
Vou ser bem direto: imagine que você tem uma empresa qualquer e precisa tomar uma decisão importante que ocasionará um lucro de 1 centavo a ela. Caso não tome essa decisão, outra empresa qualquer lucrará 1 centavo a mais do que a sua, levando-a à falência. Você tomaria a decisão? Obviamente que sim. Mas, claro, estou sendo dramático e tendencioso: qualquer um escolheria o lucro em vez da falência. Só há uma escolha certa nesse caso, porque ganhar e deixar de perder são, aqui, a mesma coisa.
Porém, no mundo real, não há essa dualidade tão simples entre lucro e falência. No jogo do livre mercado, essas duas coisas são intrínsecas: se não lucra, eventualmente falirá. Você até pode não lucrar e se manter estável por um tempo, mas o coleguinha do lado estará aumentando seu capital e, logo, você sucumbirá. Toda empresa visa uma coisa: lucro, pois lucro é sobrevivência. E, se há a possibilidade de lucrar 1 centavo a mais, essa possibilidade será usada. Agora imagine isso com preços exorbitantes em jogo. O sistema força a ascensão de monopólios, disfarçando-se de “livre mercado”.
Isso vale para qualquer negócio, não sendo excludente às redes sociais. Grandes monopólios empresariais, esses, que escondem muito bem suas atividades econômicas voltadas ao lucro com base na interação social mundial. Ou seja, elas se retroalimentam daquilo que fornecem, modificando-se sutilmente (ou não) para que os que a fomentam continuem a alimentá-las.
É simples: se a maioria dos usuários de uma rede social qualquer gosta de utilizar mais a função x do que a função y, ela vai dar mais prioridade em melhorar a x, se isso lhe gerar mais lucro. Pode-se trocar “função” por: política, ações, configurações, tendências… Ou seja, não interessa o conteúdo; se dá lucro, continua ou melhora. E qual função daria lucro a uma empresa que é um serviço de microblog para comunicação em tempo real, senão a “negatividade” voltada para o ódio?
É como dizem: “notícia ruim chega rápido”. Qualquer informação negativa espalha mais depressa do que uma boa, ainda mais num mundo de imediatismo como o nosso. Isso é um imenso pote de ouro para “redes sociais”, já que as notícias nesses meios se proliferam de modo independente e “livre” pelos usuários. Isso quer dizer que o ódio, a ruindade, o preconceito e todas as mazelas ganham mais atenção, seja por um mecanismo de sobrevivência biológica que nos faz prestar mais atenção a elas, pela busca da ascensão midiática de alguns, pelo momento de ansiedade global em que estamos, ou até pelo fascínio da metade da população pelo mal do próximo.
O Twitter foi uma dessas “redes sociais” que abraçou essa função. Não só abraçou, como levou ao peito e levantou a mão em um ângulo bem enviesado. Exemplo claro disso é o fato de que qualquer babaca pode comprar o selo de verificado para proliferar ainda mais seu discurso discriminatório, ou a própria I.A. lá dentro, que agora está editando e sensualizando fotos de menores de idade com total naturalidade. I.A. essa que, há pouco tempo, tinha sido desativada por estar enaltecendo Hitler.
Quando o verme do Elon Musk comprou o Twitter, não foi só para ratificar que ele era o mais “pinto pequeno” do mundo; foi porque ele visualizou lucro em cima de algo que já vinha sendo construído na rede social. O ódio permitido lá dá muito dinheiro, e ele sabe muito bem disso. A saudação nazista, televisionada durante a posse de um dos piores seres humanos que já existiram como presidente de um dos países mais poderosos do planeta, não foi ao acaso. Ambos podem não ser os nazistas que vão atrás de judeus e vivem levantando a mão a todo momento, mas sabiam que o gesto cairia muito bem naquele momento. Além de mostrar aprovação para que milhares de “pessoas” saiam das sombras, eles sabiam que isso fomentaria muito mais suas empresas. Narcisistas do jeito que são, para eles seria uma vitória serem os ícones do neonazifascismo. E, se quem está lendo isso me vier com “saudação romana”: VAI TE FUDER!
Toda essa corja da extrema-direita, até então, se escondia, defendendo-se de modo covarde em seus atos preconceituosos, antiéticos, antimorais e antivida, por meio da “liberdade de expressão”. Usavam — e ainda usam (de modo errado) — algo constitucional da democracia do nosso país para se defenderem de seus atos, incompatíveis com os princípios proclamados na própria Constituição que citam. Se a liberdade de expressão é realmente tão defensora assim para eles, por que não falam as barbaridades que falam na frente de um policial militar, de um juiz ou de qualquer pessoa que tenha mais poder que eles? Dizer “eu acho que todo PM tinha que morrer” na frente de um PM. Ele não vai poder fazer nada, né? Aliás, é só sua “opinião” — de um Homo erectus acéfalus.
Nas redes sociais, encontraram um lugar onde, ao contrário da realidade, podem usar e abusar das criminalidades que cometem. Isto é, estamos vendo cada vez mais casos desse extremismo fora do mundo virtual, mas nada nos surpreende, pelo fato de se portarem anonimamente, com máscaras. Covardes que, na sua grande maioria, se escondem atrás de nomes falsos e fotos genéricas de desenhos animados, com o pretexto de disseminar ódio a todos na internet.
Bem, a todos não.
Obviamente, esse ódio tem um público-alvo: minorias, principalmente mulheres. Mas, basicamente, tudo o que não se enquadra no modo eugenista de pensamento deles acaba sendo motivo de ódio. Isso diz muito sobre quem são os agressores: homens (que de Homem não têm nada). São moleques, barbados ou não, frustrados com suas realidades deprimentes, que encontraram na internet comunidades onde viram um futuro com base na depreciação do próximo para satisfazer o ego ferido. Que, por quererem, mas não conseguirem uma relação amorosa e sexual, tentam disfarçar essa rejeição como sendo uma escolha deles (incel). Ou, por terem passado madrugadas vendo vídeos no YouTube, acham que sabem o sentido da vida e chegam à conclusão de que são superiores aos outros (redpill).
“Sujeitos que desejam algo (normalmente mulheres) e que não só não conseguiram conquistar o que desejam, como têm a convicção de que nunca serão capazes de conseguir. Aí entra a ‘hipercompensação’, que é quando um moleque desses deseja ser notado, deseja ser interessante, deseja conquistar as mulheres; mas, como tem certeza de que é incapaz, ele hipercompensa: ‘Se não posso ser objeto de desejo das mulheres, serei objeto de ódio’. Passando, então, para o processo de autoengano, onde ele realmente acredita que não está namorando mulheres porque ELE não quer. Isso serve para eles não tirarem suas vidas ao reconhecerem sua total inabilidade para se tornarem pessoas minimamente interessantes.” @FariasPsicologo, no Twitter. (com algumas modificações minhas)
E o Twitter reconhece isso, porque isso gera ódio, gera visualizações, gera engajamento e gera lucro. É essencial que o Estado regulamente as redes e a internet. Não podemos esperar que a própria rede social, ou seja, a empresa, tome as decisões corretas para um convívio harmonioso lá dentro, porque isso não vai acontecer. Cada vez mais é necessário que o Estado bata de frente com tudo isso, porque, caso contrário, esses escrotos vão continuar testando e arrebentando os limites de convivência da sociedade, buscando lucro na base do ódio, da misoginia, do racismo e de qualquer preconceito que seja.
E, na minha visão, não compensa debater ou contra-argumentar com qualquer ódio gratuito lá dentro, pois isso só fomenta ainda mais essa raiva instaurada naquele ambiente. A partir do momento em que leio crimes, eu apenas bloqueio, porque a pessoa que escreveu é criminosa e não merece a minha atenção. A atenção que eles merecem é a de um advogado, de um policial, de um juiz e de um robusto pedaço de metal (entenda como quiser).
É difícil ler atrocidades e ficar calado, mas é exatamente essa atenção que eles tanto querem e, com essa atenção, esse movimento nojento deles só cresce. Crescendo esse movimento, cresce a força que eles têm para cima das minorias e, consequentemente, o lucro para a permanência de seus monopólios.
Ódio não se combate com ódio; ódio se combate com punição.



