Página Matinal
- 23 de jun.
- 3 min de leitura
06:45
Acordei e vim direto me sentar diante do caderno para escrever. Virou um hábito meu, esse ritual primordial matutino. Usar esse momento iniciático do dia me ajuda a purificar pensamentos intrusivos que vieram com o abrir dos olhos. O conteúdo pouco importa, o objetivo é descarregar, em parte, logo de entrada, toda uma avalanche mental, revigorada após uma noite de descanso, que está mais do que pronta para me exaurir novamente caso eu não a expurgue.
Nem amanheceu ainda. Pela janela do quarto, estou encarando a escuridão da noite que ainda predomina os céus. O curioso é que há uma sinestesia nessa coloração única da madrugada, pois com ela o som também é monocromático. Ambos casam muito bem: O manto estrelado imóvel com o silêncio contínuo que sua infinitude proporciona. Será que há mais alguém admirando-a nesse exato momento como eu?
Aos poucos o sol modifica minha percepção visual do céu. A aurora surge no além. Do oceano profundo, um tom de cobalto emerge do vazio. O cobalto é um metal conhecido por ter uma pigmentação azulada e encontrado sempre combinado com outros minerais. Faz jus ao pertencimento do grupo de “metais de transição”, pois visto daqui, é o exato ponto entre noite e dia. O que era madrugada transforma-se em despertar.
A partir daqui, inicia-se a magia do nascer. Um degradê passa a se desenhar quase que invisível a olho nu e a cada piscada, ele muda suavemente seus tons, emergindo algo mais claro no horizonte, empurrando a escuridão para cima. Visualmente, é logicamente o inverso do pôr do sol, em que a escuridão empurra o claro para baixo; mas do ponto de vista simbólico, é algo a mais: no pôr, vemos a concretização de um dia inteiro. O sol se despede de forma magistral, concluindo-o com um resumo artístico estampado na grande tela acima de nós; No nascer, essa abstração é indefinição. Há uma indecisão incognoscível do caminho que irá se desdobrar a seguir. O futuro é incerto, o próximo pigmento a ser visto é duvidoso. Pode-se até ter uma ideia colocando uma intencionalidade naquilo que almejamos para o hoje, mas ele só é construído de fato em pequenos momentos subjacentes que vão se interpolando com o tempo. Então, um transmite o que foi, enquanto o outro transmite o que talvez irá ser.
Do violeta, o roxo passa a predominar e com ele me vem a vontade apenas de observá-lo, largar a caneta e focar minha atenção nas cores que são incomuns no dia a dia. Ainda bem que não há nuvens, pois assim parece tinta derramada sem nenhuma parcimônia. Pena que essa alteração é rápida, mas talvez seja aí que esteja a peculiaridade da sua beleza: ela é quase que momentânea. Um pequeno intervalo de tempo que merece ser contemplado, e por ser breve, é exigida com zelo. Se seu tempo de revelação fosse maior, talvez seu encanto não tivesse tanto efeito.
De uma atmosfera ametista, vem uma paz interior, atuando como um calmante natural que afasta todas as energias negativas. Sem perceber, acabo me hipnotizando com o momento presente que a coloração me proporciona, auxiliando em uma espécie de meditação. O dia está sendo apelativo, me induzindo a conectar totalmente com essa obra de arte exposta democraticamente para tudo e todos que têm sistemas e estruturas responsáveis por percebê-la. Para nós, está ali, basta direcionar o olhar e se apaixonar por ela.
Agora, chegando ao fim dessa metamorfose preambular do crepúsculo matutino, uma orquídea vibrante toma conta de tudo. Tão vibrante que com ela vêm acompanhados os sons da natureza, que aos poucos ganham força; e os sons da cidade, competindo de forma integral com qualquer outra expressão sonora. Aos poucos, os diurnos acordam dentro desse degradê progressivo do limiar, e, pelo barulho externo ao meu quarto, eu presumo que meus gatos já estão bem despertos procurando algo para se entreterem. O dia então se inicia. Na cosmologia do Egito Antigo, durante o dia, o Deus Rá guia o sol pelo céu em sua barca; durante a noite, desce ao submundo e enfrenta a serpente do caos que tenta impedir o renascimento solar. Cada começo de manhã não é uma continuidade automática: é uma vitória renovada. A ordem triunfa sobre um caos, mas nunca de forma permanente. A batalha recomeça ao anoitecer e a indefinição matinal também.
Imagina que sem graça seria se esse alvorecer fosse instantâneo, sem diversas cores de transição, sem o florescimento gradual na manifestação de um novo dia, sem a carga poética por trás, sem toda a dramaticidade do que é o vir a ser, que só a temporalidade da vida pode proporcionar.
Bom, já que começou, vou lá fazer um café.



